São muitas as garotas que se dizem a primeira a pisar no gamado do Maracanã, como repórteres. Uma delas foi Marilene Dabus. Esta surgiu respondendo perguntas sobre o Flamengo, durante programa da TV Tupi do Rio de Janeiro, quando ficou conhecida por “A Moça do Flamengo”, em 1969.
Por aquele tempo, mulher pouco ia a jogos de
futebol, só havia duas revistas esportivas de circulação nacional – Revista do Esporte
e A Gazeta Esportiva – que nada poderiam ajuda-la, e era dificílimo encontrar livros
esportivos. Mas Marilene encontrou “Histórias do Flamengo”, de Mário Filho, e pelo
tal estudou. Fez tanto sucesso na TV que foi convidada para cobri os
rubro-negros, pelo jornal Última Hora, pois não se exigia registro profissional.
Quando Marilene chegou para cobrir o seu primeiro treino no campo do Flamengo, na presença só de homens, foi um terror. Usando sapatos de salto alto e minissaia (moda para todas as garotas), a turma olhava mais pra ela do que para a bola rolando. Quando o treino terminou, atletas e dirigentes, também, se espantaram. Ela, porém, “tirou tudo de letra”, como era linguagem do futebol e foi se enturmando com a rapaziada.
No rol das história sobre a primeira mulher a fazer “isso e aquilo” no mundo da bola ficou a de que Marilene Dabus teria sido a primeira a entrevistar Zico (maior ídolo da história da torcida rubro-negra) e previra o futuro do garoto que então mandava os seus primeiros chutes rumo ao sucesso. Uma outra foi a de que ela teria sido a primeira mulher a entrevistar Pelé, que a teria “recebido com desconfianças”, durante os preparativos da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 1970.
- Alguns machistas me depreciavam, insinuando que eu só conseguiria grandes reportagens por outros meios (usando o sexo). Existia muito preconceito nas Editorias de Esporte. Sofri bastante – afirmou, por várias entrevistas, mais tarde. E só ganhou visibilidade e notoriedade ao ter entrevista exclusiva, com Pelé, publicada pelo Jornal dos Sports.
Pela metade
da década-1970, Marilene de Aparecida Dabus, mineira de Araxá, foi convidada pelo
candidato Márcio Braga a trabalhar pela sua chapa, a Frente Ampla pelo
Flamengo-FAF. Eleito presidente, ele a nomeou vice-presidente de Comunicação.
Conta-se, também, ter sido dela a sugestão de batizar o centro de treinamentos
do clube, em Vargem Grande, por Ninho do Urubu.
Marilene não jogou o futebol: o noticiou. Até lá, só a revista Manchete Esportiva, durante a década-1950, tivera uma repórter para matérias com garotas que se destacavam em modalidades de há muito praticadas pelas mulheres, como patinação artística, iatismo, etc. Mas, rolar a bola de futebol foi capítulo terrível para elas.
Tem-se
1913 como data de primeira tentativa das mulheres de jogarem futebol no Brasil,
tendo a crônica machista as chamado por “grosseironas”, enquanto elogiava os rapazes
da elite carioca que rolavam a pelota. Chegado o Governo Getúlio Vargas, em
1930, a coisa piorou para elas. O presidente baixou o decreto-lei nº 3.199,
limitando o mundo desportivo delas só a esportes “condizentes com as suas
funções de mãe e futuras mães”, oque significava nem sonhar com futebol,
beisebol, halterofilismo, lutas, “nada incompatível com a condição feminina”.
Em 1965, o decreto-lei de Getúlio Vargas foi regulamentado pelo regime militar dos generais-presidentes, mas foi revogado, em 1982, pelo Conselho Nacional de Desportos. Por ali, Marilene Dabu, de há muito, já frequentava esta história – como escriba que viveu de 1939 a 2020.



Nenhum comentário:
Postar um comentário