As mulheres saíram de um segundo plano, nos quadrinhos, para
uma exposição radical, em que sexo, erotismo e boas doses de banditismos
substituíram antigas posturas conservadoras. foi um pulo para as mulheres e
para os quadrinhos (ou comics, ou bandes-desinés) que começaram a ser
analisados como manfiestações artísticas dentro da cultua de massa dos anos 60.
Uma revolução e tanto.
Bad girl é sinônimo de erotismo indissociável das exigências
comerciais da indústria cultural de hoje. Mas, se no renascimento, os pintoras
já povoavam suas telas com desejáveis madonas, porque privar o presente e o
futuro das deliciosas bandidinhas? Ainda bem que cinema, fotografia e
quadrinhos formaram um bem-aventurado inferno para essas pecadoras.
Antes mesmo de completar uma década de funcionamento do
Hogan´s Alley (1895),o beco mais imundo do mundo, as bandidas já eferveciam as
mentes masculinas, dentro de revistinas em preto e branco, impresas em gráficas
de milésima categoria. Foi o tmepo das Tijuanas Bibles ? livrinhos parentes dos
catecismos desenhados por Alcides Caminha, o Carlos Zefiro, nas décadas-50 e 60
? e que ganharam tal denominação porque os norte-americanos viam as suas
fronteiras com o México como o típido território que o diabo gosta.
As bad biblias surgiram sacaneando o rádio, o cinema e os
quadrinhos, e, em 1952, ionspiraram Harvey Kurtzman a criar Mad. Antes, as
bandidas da década-40 já haviam prestado um grande serviço à humanidade, se despindo
nas folhinhas e quadrinhos que foraleciam os gloriosos combatentes de guerra.
Depois, viraram insunuantes pin-ups, nos anso 50, qiuando até as conservadoras
páginas da Esquire se renderam aos seus encantos, como já o haviam feito antes
as bragas revistas de terror e os paperbacks policiais.
Na década-60, mudou-se o conceito de quase tudo e as
adoráveis bandidas de um mundo que trocara os beatniks pelos hippies,
sofisticaram-se, caso de Barbarela, criada por Jean-Claude Forrest, em 1962,
capaz de satisfazer o corpo com quem topasse encará-la, fosse deste ou do outro
mundo.
Foi por aquele mesmo período que Harvey Kurtzman e Bil Elder
criaram, nas páginas da Playboy, a bad danadinha Little Annie Fanny, seguida,
em 65, pela mais safadinha aidna Valentina, de Guido Crepax (1965). Na década-70, Ricahrd Crumb e Georges Pichard
inventaram as terríveis gordinhas e nos anos-80 vieram mais sensualismo ainda
com os italianos Milo Manara (Frederico Felini foi um dos admiradores de sus
longilíneas, ingênuas e safadas bad girls) Paolo Serpiere e Giovanna Casotto.
Por sinal, Casotto deixou as coisas literalmente da cor do diabo. Inspirando-se
nos cineastas Pedro Almodóvar e Russ Mayer, e no escritor Henry Miller, ela
produziu quadrinhos loucamente saídos e sua imaginação erótica, com toques de
masoquismo. Giovanna, autora e atriz, encontrou terreno fértil par os seus bad
sonhos, afinal seu marido - Franco Saudelli - produzia Blonde, uma ladra de
jóias, especialista sem despir e amarrar mulheraços. E, com tanta sacanagem no
papel, não teve quem se segurasse. Até os conservadores quadrinhos juvenis
norte-americanos mudaram.
Na década-90, as bad heroínaspassaram a perder as roupas
facilmente e a se meterem em sumaríssimos maiôs. Credita-se a Jim Lee a
explosãodo sucesso, principalmente depois do hipersensualismo que ele s os
seguidores deram a personagens como Psilocke e Vampira, e do lançamento de
novas musas, como Devota e Vodu. No entanto, tudo indica que Elektra, a ninja
assassina criada por Frank Miller para dar alento ao Demolidor, tenha sido a
primeira bad girldos quadrinhos modernos, com o seu perfil musculoso, mas
bandidamente sexy.
O certo é que as bad girl das graphic novelnada
acrescentaram aos quadrinhos, a não ser fazê-los vender bem, simplesmente, por
causa de suas poses sexy. Foi isso que levou a Penthouse entrar no ramo e
lançar a Young Capitain Adventure, desenhada por Adam Hughes, que criou a
insaciável Herricane, mestra em aproveitar todas as chances possíveis para
tirar a roupa e se dar bem na situação.
Pesquisadores ultrarigorosos conseguem ver nas cavernas
peleolíticas as prmeiras manifestações das histórias em quadrinhos. Se
estiverem corretos, então não é a partir dr Yellow Kid(16/02/1896) que a mulher
pinta nessas histórias, oficialmete, pouco mais de centenárias. Quem há de
duvidar que ela não despertava a imaginação de qualquer artista rupestre?
Naquele feveriero de 1896, quando técnicos do jornal New
York World sintetizaram a cor amarela no camisoção de um menino careca, o Mick
Dugan, criado por Richard Felton Outcault, para a capa do suplemento dominical,
a mulher poderia até ser uma das muitas escórias que habitavam o alegre beco
Hogan´s Alley. Mas ainda estava longe o tempo em que ela conseguiria a fama de
um Yellow Kid, personagem que fez disparar as vendas de um jornaleco.
Desde quando cartunidtas separavam personagens fixos e
usavam balões com diálogos, além de imagens sequenciais, o que foi tudo juntado
depois por Outcault, tanto nos quadrinhos como nos livrinhos infantis, o homem
era sempre dono do pedaço. Com o surgimento dos comics booksnorte-americanos,
entre 1933 e 34, no formato meio-tablóide, e contendo histórias completas, a
mulher começou a aparecer mais nos quadrinhos. De início, eram as meigas
mocinhas capturadas pelos bandidões, para atrair os heróis, o que acontecia
tmabém no cinema. Com o passar do tempo, ela até mudou de lado e virou bad
girl, muitas delas adoráveis bandidas, com torcida frenética de leitores,
desejando vê-las vencedoras no final da história.
Os pesquiadores ultra-rigorosos, que identificam as
primeiras manifestações dos quadrinhos "lá para trás", não tinham
como ver bad girls nos hieróglifos ou baixo-relevos egípcios, muito menos nas
vias sacras católicas, nos trípticos de Bosch e Brughel; nas aventuras seriadas
de Goya e Gustav Doré; nos cartazes de espetáculos intinerantes, contando
histórias em grandes quadros; nos posters de crimes famosos; nas caricaturas ou
nas charges políticas.
No Brasil, que nunca foi um grande consumidor de gibis
(generalizaçãodas publicações do ramo, a partir da publicação de uma revista
lançada em 1940, com 32 páginas e em papel jornal), as bandidonas ou
anti-heroínas viveram o seu grande momento na década-60,quando circularam as
supersensuais Mirza, Nádia, Zora e Velta, que deixavam os adolescentes tontos.
A CatwoomanSelina Kyle, a Mulhr Gato, criada por Bob Kane,
tendo por modelo uma namorada, foi a primeira bgad girl dos quadrinhos.
ex-aeromoça da Speed Airways, Selina sobreviveu a um desastre aéreo, passou por
uma longa amnésia, e, quando acordou foi parar na vida bandida. Tudo por falta
de emoções no seu pacato dia-a-dia de dona de loja de animais.
Mas foi a sofisticação e a classe bandida que rendeu um fã
clube à Mulher Gato. Ele estreou com o Batman, em 1940, o acompanhou nos desenhos
animados (Batman: The Animated Series) e com ele chegou às telas (14/03/1968),
embora no primeiro ano da série só tivesse aparecido em aventura de duas
partes. Na pela da anti-heroína, Julie Newmar (substituída depois pela negra
Eartha Kitt) seduzia os homens com as suas roupas colantes, abusadamente sexys,
e agradou tanto que o personagem dos quadrinhos passou a ser desenhado tomando
por base os seus tributos anatômicos. Mas a Mulher Gato que ninguém deixou de
amar foi Ivone Craig, contracenando com Burt Ward, nos seriados das TV dos anos
60.
Em agosto de 1966, quando Batman chegou ao cinema, para
salvar os membros do Conselho de Segurançpa das Nações Unida, que seriam
raptados e desidratados por todos os vilões da série, coube a Lee Marywether
encarnar a adorável bandida, que levou quase 30 anos para voltar à telona. Em
Batman, o Retorno, dirigido pro Tim Burton (1992), a apaixonante Catwooman foi
Michelle Pfeifer.
A Mulher Gato emplacou tanto que foi preciso criar uma
Batgirl de conduta feminina exemplar, para concorrer com ela. Escondendo a
identidade de Barbara Gordon, filha do Comissário Gordon, autoridade de Gotham
City, a rival Selina foi criada (1967) para a série de TV. No entanto, a
princípio, não foi levada a sério. Chamada de Beldade Morcego, A Donzela
Mascarada e A Elegante Combatente do Crime, só ganhou importância na década-90.
Entre as brasileiras, o grande fenômeno de criação de
heroínas nos últimos tempos foi a Tiazinha, personagem de Suzana Alves, que
saiu de um programa para jovens, na TV, para virar heroína encarnando uma bad
girl, mas com tendências a fazer ao bem.
Galeria de heroínas
Elektra - Criação de Frank Miller, em 1981. Filha de um
diplomata grego, troca de vida e deixa a paixão pelo estudante de Direito Matt
Murdock (O Demolidor, figura principal da revista Dardevil) para se tornar uma
matadora de aluguel, após o assassinato do seu pai, num atentado terrorista.
Barb Wire - Esperta, malvada e muito amarga foi a definição
da atriz Pamela Anderson para a bad girl que ela interpretou no cinema,
dirigida por David Hogana e roteirizada por Chuck Pfarrar. Super-sexy e
moderninha, Barb Wire cheogu às telas como dona de nightclub e caçadora de
recompensa, em Steel
Harbour, área neutra no meio de uma guerra divil. Recrutada
pela resistência, ela deveria levar um agente, em segurança, até o Território
Livre.
Mulher-Hulk - Inicialmente, a versão feminina do Incredible
Hulk, inclusive, rasgando roupas. Circulava na revista The Savage She-Hulk,
quando Roger Stern a levou para Os Vingadores, uma publicação onde poderia se
tornar mais interessante
Voodoo - Inocente personagem desenhada por Jim Lee, para a
formação inicial do Grupo Wild Cat, que incluía ainda Zealot e Void, fêmeas
arrojadas e violentas.
Thank Girl - Bad girlinglesa criada por Jamie Hewlett e Alan
Martin que lhe deram cidadania australiana nas páginas da revista Deadlina
(1968). Teve pouca repercussão, mas ganhou uma superprodução cinematográfica,
dirigida por Rachel Talalay e estrelada por Lory Pettuy. A DC Comics quadrinizou
o filme e ainda dedicou-lhe duas miniséries, The Odissay, escrita por Petr
Milligan, e Apocalypse.
Mulher Invisível - Criada em 1961, por Stan Lee e Jack Kirb,
como sue Storm, bad girl com poderes próprios, sem representar versão
masculina.Dona de casa e mãe, enfrentou a ira das feministas dos anos 70, que
não queriam como Invisible Girl. Trocou de nome na década-80.
Mary Jane -Outra bad girlcrida por Stsan Lee, nos anos 70,
quando as feministas não aceitavam que os homens decidissem a vida das
mulheres. Sem ser superpodedrosa, Jane Watson surgiu decidida, fazendo o que
quisesse de sua vida, e sendo capaz de mostrar o caminhodas pedras a Peter
Parker, o Homem Aranha.
Druuna -Criação de Paolo Eleuteri Serpieri, em 1985, uma
opulenta morena de aterrorizante apetite sexual, proveniente de um mais
aterrorizante ainda mundo erótico de ficção científica, onde imperam monstros,
mutantes, tarados, etc
Valentina - Criada,
em 11965, pelo italiano Gudo Crepax, seria apenas a namorada de Phillip
Rembrant, um crítico de artes com poderes psíquicos. Mas, a bad girl, que quase
sempre usa apenas sapatos de saltos altos, algemas e um chicote durante as suas aventuas, terminou fazendo o
rapaz sumir. Crepaz quadrinizou ainda aoutras bandidas eróticas, como Justine,
de Sade; A História de Ó, de Pauline Reage, e Emanuelle Arsan e qye ganhou as
telas do cinema no corpo da atriz Sylvia Kristel.
Miss Adventure -Escrita por George Caragonne, uma
estonteante loira fatal e virgem vive aventuras que satirizam os super-herós.
Devota - Integrante do grupo Wildcats, usa maiôs que sempre
rasgam durante suas aventuras.
Witchblade - Peladona,
fora das batalhas usa shortinhos curtos. Investida de supearpoderes,
algumas partes do seu corpo são recobertas por placas de metal.
Betty - Sexy-heroína
lançada por Dave Stevenson, na metada da década-80, junto com o herói Rockteer,
no auge da graphic novel. Foi baseada na pin-up Betty Paige, ícone da
década-50.
TITULO
No início, os comerciantes da idade média criaram as
gazetas, para noticiar o comércio. O tempo foi passando e surgiram os
classificados, para vender coisas. Hoje, eles vendem até amor. Se não anunciam
propaganda enganosa, nunca foi tão fácil amar deusas, musas ou sereias. Elas
são um lindo sonho delirante.
São loiras, ruivas, morenas, índias, orientais,
brasileiríssimas. Todas lindas, liberais, carinhosas, cheirosas, deliciosas,
tesudas, sensuais. Em comum, só o fato de serem diabinhas de inferninhos que
dão garantia de prazer intenso a quem só pensa "naquilo".
Danadinhas, elas se revelam por inteiro no fogo intenso do
que for tratado, mas recolhem-se, intransponívis, no íntimo de suas
identidades. Vão à guerra como Alines, Camilas, Cláudias, Fabíolas, Isabelas,
Marianas, Renatas e Valérias, entre outras graças que, também, incluem Karens,
Kiaras, Natashas, Monikes, estrangeirismos que impressionam os ouvidos
tupiniquins.
O negócio delas é o prazer, mas, sem querer, essas meninas
de vida facilitada pelo celular, a internet, o táxi e o motel com ar
condicionado criaram uma literatura que faz o substantivo ter ciúme do
prestígio do adjetivo, além de deixar a gramática pasma da sensualidade
conferida à metonímia. Querem um exemplo? Com certeza, Amanda, 18 aninhos,
"princesinha dos seus sonhia mais eróticos, cabelos longos, na cintura",
não estava nem aí para o sentido figurado que a sua professora primária lhe
ensinou e que ela, com certeza, nem se lembrou, quando anunciou ter uma
"boquinha mágica, bem gulosa". Gulosa de quê? Amanda não precisa
explicar. Mais explícito do que essa figuração só a metonímia que ela usou para
avisar aos leitores dos classificados dos jornais que tem um "bumbum
delicioso".
As vezes, uma superdiscreta princesinha esquece que vive num
país onde a discriminação epidérmica é crime e anuncia-se como
"branquinha". Perdoável só por quem adora as letras daquelas músicas
com cheiro de motel, afinal a gata complementa o preconceito dizendo que
"...adora beijos...vou dar tudo o que você quiser, sem frescura".
Também, há casos em que elas parecem bairristas: "Mineirinha linda...
Linda goianinha... Loira gaúcha". De repente, nem sejam, queiram, apenas,
acarinhar o torrão natal.
Tem delas que, quando se definem, mostram-se saídas de
velhas histórias gregas, como uma deusa "arrazando corações, em 1,70 m de pura safadeza,
curvas divinas, bumbum lindo, tesuda da cabeça aos pés, totalmente liberal,
híper carinhosa, a amante mais do que perfeita". Dá pra resistir?
"Venha realizar as suas mais loucas fantasias...", oferece Aline, de
21 anos. Mas, se nesta matéria pode entrar deusa grega, então, pode pintar
também uma "sereia superbronzeada. Belíssima!" Adria Gaúcha, a loira
de cabelos longos, vai mais fundo ainda, deixando todos curiosos. "Tenho
algo grande. Quer saber? Ligue e pergunte o que é", autoriza, a prenda, de
1,70 m.
Em tempos de geração saúde, não podia faltar aquela "de
corpo malhadinho... pra você que procura uma bela massagem e gostoso relax,
completinho". Interessado? Então, confira se Ana Carla, de 19 anos e
1,68m, além do que diz, é, realmente, "linda, carinhosa, sensual",
como Ana Luiza que, além de "atraente, sensual e bonita", ainda manda
avisar que é educada, meiga, carinhosa e higiênica. E pra matar:
"...bronzeada, pernas grossas, bumbum exuberante, ao gosto de senhores que
gostam de beijos e carícias". Gostou? Poética, hem!
A esta altura do campeonato você pensaria que só falta
pintar uam garota saída das letras da Bossa Nova , não é mesmo? Mas ela existe,
sim, e tem nome de cantora do gênero. Anote a cantada de Maysa, de 18 aninhos,
1,60m: "Uma gracinha de morena, gostosas dos pés à cabeça lábios
provocantes, corpo excitante, Seios perfeitos, liberal e fogosa. Amante mais do
que perfeita, pronta para satisfazer suas vontades". Não é mesmo uma
autêntica "Garota de Ipanema do Cerrado?" No tom do Planalto! Confira
se os olhos dela são dois lagos não pacíficos.
Agora, prezado, segure esta: se a Playboy pagou aquele quase
milhãozinho de dólares para você ver uma deusa da TV, como Deus a criou (nua),
ou como o homem a complicou (vestida), gaste infinitamente menos só com um telefonema
para Denise (9991-9338). "Exuberante, sósia de Vera Fischer, mulher fina,
educada, de bom nível social e cultural. Goiana, loira, elegante, atraente,
sensual, lindíssima". Chega, ou quer mais? Mais? Então saiba que ela é a
acompanhante perfeita para você deixar os amigos de queixo caído nos eventos
onde comparecem executivos e empresários. Denise atende com classe e descrição,
prometendo, preferencialmente, aos hóspedes do Setor Hoteleiro Norte/Sul
..."senhores de extremo bom gosto, um raro e inesquecível prazer".
O anúncio acima só não especifica se esta goiana é humana ou
biônica, pois ela oferece atendimento vip, 24 horas por dia. Mas, não se
preocupa. Se não der para fisgar um clone de Ver Fischer, você tem Isabela,
"ex-modelo, 1,78m de pura simpatia. Mulher bonita, clara, 68 quilos bem
distribuídos, toda bronzeada..." Fique só sabendo que, pela sua passarela,
ela prefere os desfiles dos "senhores executivos e empresários, aos quais
promete serví-los com discrição, carinho, qualidade e gostosa massagem
relaxante".
Eu telefonei para as "belas dos classificados",
mas só uma delas aceitu conversar, assim mesmo não permitindo fotografias, nem
a gravação de sua voz. Inclusive, para não ser identificada, pediu para trocar
o nome divulgado no jornal pelo de Vânia. O nosso encontro foi marcado por ela
para a saída da agência central do Banco do Brasil, no Setor Bancário Sul. Pela
descrição da roupa que usaria, de sua cor e altura, não tive como errá-la. Ela
era muito mais bonita do que se anunciava. Lembrava aquela atleta de vôlei, a
Ana Paula. Educadíssima, perguntou se poderíamos conversar no bar do aeroporto.
O carro dela é um Vectra. Vânia, sempre sorridente, é uma dama. Tem 27 anos,
mede 1,74m, é morena, tem cabelos longos, dentes perfeitos e fala, fluentemente,
o francês. Domina, também, o inglês.
Quando sentamos para conversar, ela sugeriu tomarmos um
vinho nacional, para não encarecer muito a conta. E pediu Forestier risling,
branco, suave. Então, ela me contou: "Eu cursei até o quarto ano de Administração
de Empresas. Trabalhei num banco, porque rompi com a minha família. Os
diretores não me deixavam em
paz. Eu passava mais tempo sendo cantada do que trabalhando.
Um dia, li um livro sobre a "outra". Imaginei-me naquela situação e,
quando a minha conta bancária secou e não deu mais para pagar a faculdade,
preferi fazer aquele jogo do que me reconciliar com os familiares, que tentavam
me passar uma idiosincrasia que, na verdade, era muito mais uma
hipocrisia".
Segundo Vânia, a sua tomada de posição aconteceu quando um
diretor do banco, um gay, lhe contratou para passar por sua namorada, numa
recepção, em São Paulo.
"O acordo ficou pelo dobro dos 700 reais que eu ganhava, mensalmente. E,
depois daquela, eu topei todas as que pintaram. Ficar ganhando o que eu ganhava
seria burrice. Voltei para a faculdade, mas tornei a abandoná-la, faltando seis
matérias para concluir o curso. Um executivo francês apaixonou-se por mim e
insistiu para eu me casar com ele. Não aceitei o casamento, mas vivi três anos
com ele, em Paris. Durou
até muito, pois ele era muito ciumento. Tive vários convites para fazer
desfiles de modas, fotografias para propagantes em revitas e jornais, mas ele
me proibia. Os europeus suspiraram quando pasavam por mim. Pareciam nunca terem
visto uma morana. Quando não suportei mais os ciúmes do francês, rompi com o
casamento. Voltei há um ano e pouco".
Vânia disse que teve poucas informações sobre o Brasil,
durante o tempo em que moru em Paris. Segundo ela, o francês esteve por aqui,
três meses depois que ela o abandonou, tentando uma reconciliação, mas ela
rejeitou. Ganhou o Vectra, de presente dele, mas nem assim se comoveu. "Eu
esperava voltar ao Brasil e terminar a minhja faculdade. Mas encontrei o país
com muito desemprego e poucs chances de colocação no mercado. Apareceram
oportunidades de trabalho, mas, de forma alguma, eu aceitaria dar o duro o dia
inteiro, por 400, 500 reais, conforme foram a propostas que pitnaram. Então,
resolvi. Então, resolvi explorar a beleza do meu corpo enquanto eu tiver
juventude. Preciso ganhar muito dinheiro para, daqui a uns oito anos, viver
outra vida".
Perguntei a Vânia se el anão sentia contrangida de sabr que
quase se graduara em Administrção de Empresas e se via colocando anúncio em
jornal para negociar o corpo. Sua resposta: "Certa vez, eu e o francês
fomos passear em Havana. Vi
médicas e arquitetas vendendo o corpo para terem dinheiro para se alimentar. Só
acreditei porque conversei com elas. É questão de opção, para mim. Repito:
jamais irei trabalhar o dia inteiro por 500, 600 reais, enquanto eu tive beleza
física. Eu tenho amigas que vocês nem imaginam o que são e que fazem o mesmo
que eu. Se as encontrarem numa destas festas elegantes do Lago Sul, pensarão
que são princesas. E não somos? Pelo menos, para os sonhos de muitos".
Convenhamos então, que
sonhar custa muito caro se o objeto do sonho for uma
"princesa".
Publicado no Jornal de Brasília de 9 de julho de 2000
UM SÉCULO DE EROTISMO
Ela carregou nas costas um dos mais rentáveis centenário da
comunicação brasileira e ninguém se lembrou de escrever uma única linha em reconhecimento. Pelo
menos, para louvr o grande número de empregos garantidos por ela.
Estamos falando do surgimento do erotismo nos meios de
comunicação do País. Isso mesmo, e aconteceu em 1998.
Tudo começou em 1898, época em que as mulheres se cobriam,
do pescoço ao tornozelo.Virgindade era artigo abundante na sociedade da época e
sexo artigo raro para as damas de fino trato,
permitido apenas depois do casamento.
Foi na vigência daquela era de repressão sexual que os
cariocs passaram a conviver com o Rio Nu, um periódico pioneiro da imprensa
erótica brasileira. Para garantir o sucesso do semanário, que circulou até 1916
e chegou a ter edições extras às quartas-feiras, mulheres eram expostas em suas
páginas, em trajes sumários (para a época)
e poses insinuantes. Além disso, despiam os apertados espartilhos,
diziam frases insinuantes e ainda se mostravam dispostas a caírem na
horizontal. Só mesmo uma publicação erótica masculina, que escondia os nomes
dos seus redatores, poderia fazer aquilo ? fim de mundo para os conservadores.
Surgia, então, um leque de projeções que a mulher passava a
proporcionava à mão-de-obra carioca. Depois de empregar jornalistas, gerou publicidade. Afinal, a primeira publicação
erótica nacional despertava tanta curiosidade que os comerciantes viram nas
suas páginas a melhor das caixas registradoras. Era uma forma de garantir
potência plena e inacabável, pois qualquer remédio contra a disfunção erétil
terminava na boca do cofre ? vê-se que a prática do BO (bom part otário) já vem
de longe.
E não ficou por aquela malandragem. Povoando a imaginação do
carioca, a mulher que freqüentava as páginas do Rio Nuencheu também os bolsos
dos produtores de licores eróticos, bons anunciantes. Sem falar que garantiu
ainda emprego para fotógrafos, que passaram a sair à caça de belas atrizes do
teatro de revistas para serem admiradas pelos leitores. Mas, num espaço de 18
anos, entre um final e começo de milênio, para a mulher proporcionar o aumento
do número de empregos ao homem, principal beneficiário da liberalização do sexo
na imprensa, o caminho foi lento.
Pode-se dizer que o pioneiro do erotismo literário
brasileiro foi o escrivão Pero Vaz de Caminha. No seu relato ao rei Dom Manuel,
após Pedro Álvares Cabral descobrir o Brasil (oficialmente), ele contou ao
"Venturoso" que as mulheres por aqui tinham "vergonhas
cerradinhas" e não se envegonhavam dos olhares indiscretos.
Escancaradamente, o erotismo feminino na imprensa brasileira
só explodiu a partir do início da década de 1970, quando a revista Ele e Ela,
da Editora Bloch, publicou a foto do nosso primeiro nu frontal. Na década
anterior, as puyblicações eróticas de circulação nacional, como a Status, não
se atreviam a tanto. No máximo, alavancavam as suas vendas exibindo mulheres
lindas com roupas sumárias, nas suas capas, ou exibindo os seios nas páginas
internas.
O caminho aberto pela mulher que teve a coragem de mostrar
as suas vergonhas em Ele e Elasignificou a geração de centenas de empregos ?
maqiuiadores, cabelereiros, diagramadores, fotógrafos, modelos, etc ?). O
sucesso foi tão significativo que, nove meses depois, nasceram outras 15
revistas eróticas no País, com circulação entre 20 a 40 mil exemplares. Par
que aquilo tudo acontecesse, foi preciso que o sisudo regime militar brasileiro
se tornasse mais maleável na censura às artes e aos espetáculos ? durante o
governo do presidente Ernesto Geisel, os editores das revistas eróticas eram
obrigados a cortar ou retocar seios, regiões pubianas e calcinhas.
(sub-título)
NA ERA DO CINEMA PORNÔ
Quando as artes e os espetáculos encontraram o governo
militar brasileiro mais maleável e conseguiram liberalizar a anatomia feminina
junto à censura que, freqüentemente, mandava apreender livros, a mulher foi a
máquina propulsora de uma indústria que proliferou-se pela década-70, a do cinema pornô.
Indiferente à postura política da nova mulher brasileira,
que já incluía idéias libertárias espalhadas pela juventude francesa, desde
maio de 1968, os presidentes-generais, Garastazu Médici e Ernesto Geisel,
"resguardando a segurança nacional", viram que estava diante de um
grande momento para impedir o Brasil de assistir filmes politizados. Naquele
novo momento, a mulher não se demorava nas sexy-cenas de cama e nem mostrava as
suas "vergonhas frontais". Deixava, no entanto, a imaginação a mil.
A década-70 foi um tempo fértil para o nascimento de mitos
femininos, que representaram investimento seguro em suas imagens. Foi assim com
Leila Diniz, Adriana Prieto (as pioneiras), Vera Fischer, Alcione Mazzeo,
Matilde Mastrangi, Adele Fátima, Helena Ramos, Simone Carvalho, Lady Francisco
e Claudete Joubert, só para citar poucas.
Por meio das pornochancadas, que foram classificadas,
inicialmente, de "comédias de costumes", as ofereceram trabalhos para
muitos diretores ? entre eles, José Miziara, J. Marreco, Toni Vieira, Cláudio
Cunha, Sílvio de Abreu, Adriano Stuart, Carlos Imperial, Cláudio MacDowell e
Pedro Rovai ? e atores como Nuno Leal Maia, Antônio Fagundes e Mário Gomes.
Filmes como "A Superfêmea", "Anjo Loiro", "A Viúva
Virgem" e "O Bem Dotado: O Homem de Itu", lotaram salas de
cinema pelo País afora.
Dirigido por Carlos Rovai, "A Viúva Virgem" levou
seis milhões de espectadores aos cinemas, mas estima-se que o público total
possa ter chegado aos 15 milhões, pois não havia registros confiáveis pelo
interior brasileiro. A película, que garantiu o emprego de bilheteiros
porteiros e maquinistas, chegou a bater
a bilheteria do norte-americano "Golpe de Mestre", ganhador do Oscar
de 1972 ? outro filme de Carlos Rovai, "Ainda agarro esta vizinha",
chegou a representar o Brasil no Festival de Cinema de Cannes, na França em
1975.
(suib-título) O
SENTIDO DAS COISAS
Foram duas mulheres ? Adelaide Carraro e Cassandra Rios ?,
as responsáveis pela disseminação da literatura erótica no País. Mas, depois
que o filme japonês "Império dos Sentidos (de Nagisa Oshima) foi exibido
por aqui sem cortes, contendo cenas de sexo explícito, as publicações das duas
escritoras passaram a ser vistas como tímidas. A partir de então os brasileiros
se viram diante de uma enxurada de livros sobre sexo, a maioria
norte-americanos ? Truque do Travesseiro; Engate e Volteio; Rolo de Macarrão e
Arco e Violino foram os mais vendidos.
Tanta literatura sobre sexo no Brasil ? Guia das Carícias:
ABC do Amor e A Força do Amor, para citar poucos ? era, realmente, algo
impensável, dentro de um execrável regime militar. Podia-se, porém, entender: o
cinema pornô estava no auge, e a sexologia contava com a vulgarização da
psicanálise. Portanto, já se podia distanciar dos tempos dos livros éticos
(quase nenhum técnico) e muito mais das teorias científicas e retrógradas do
século XIX, como a apalcação de sangue-sugas nos órgãos genitais das mulheres
superexcitáveis.
Na década de 1980, coube à atriz Regina Duarte dar mais um
grito de liberalização às mulheres. No seriado "Malu Mulher", da TV
Globo, sua personagem mantinha relações íntimas com uma amiga e, num outro
episódio, encenava um orgasmo. E, por falar em orgasmo, desde a época dos sixty
que Virgina Johnson, em parceria com o marido, William Master, havia concluído
que a mulher poderia ter orgasmos múltiplos. O fato, porém, é que há mais de um
século a mulher vem fornecendo orgasmos mentais ao homem.