segunda-feira, 11 de julho de 2011

O ENIGMA DO SORRISO

Há mais de cinco séculos, se cultivam histórias e lendas sobre uma pintura sonhada em 1502 e nascida no abril de dois anos depois, para se tornar o maior mito da história das artes, La Gioconda. Só que a modelo pintada por Leonardo da Vince, a recatada dona de casa Lisa Gherardini del Giocondo, jamais se viu na tela. Isso mesmo! Mas milhões de curiosos do mundo inteiro a procuram, diariamente, no Museu do Louvre, em Paris, onde se encontra cercada por um vidro à prova de bala e que a protege de roubo.
Também chamada, erradamente, de Monas Lisa, pois esta foi uma sua “neta”, Lisa era a mulher de um mercador de sedas, Francesco del Giocondo, e tivera uma impressão tão ruim de Leonardo, quando se conheceram, que quase chegou a desistir de ser a modelo que o gênio imortalizaria. Afinal, era censurável a uma “madonna” florentina pôr-se diante de um sujeito tão excêntrico como aquele, usando vestes espalhafatosas e um linguajar chocante, a ponto de dizer-lhe que pretendia captar-lhe a alma . Por causa das esquisitices de Leonardo, La Gioconda esteve ameaçada de não nascer. Alias, duas vezes. Antes, quando Lisa desaprovara a idéia, Francesco propôs-lhe dispensar o “dipintori”, mesmo tendo-lhe adiantado parte do pagamento pelo trabalho.
O nascimento do mito começa quando Leonardo da Vinci conhece Giuliano de `Medici, em 1502, em Urbino, onde estivera a serviço do papa Cesare Borgia, para estudar e reproduzir o traçado arquitetônico do castelo onde o rapaz vivia exilado, após a queda, em 1494, dos 60 anos de poder político dos Médici, em Florença. Foi quando o Medici solicitou-lhe o retrato da prima. Leonardo só o fez porque se cansara da vida errante que levava e por achar uma bestialidade humana as campanhas militares de Borgia, que planejava transformar em um só reino da Itália as regiöes da Toscana e de Florença. Assim, na tarde de 4 de março de 1504, aquele homem alto, barbudo e careca, de 51 anos, surpreendeu Francesco, na Fiação Giocondo, informando-o de que estava ali, a pedido de Giuliano de Médici, para pintar um retrato de sua esposa.
Se Lisa esperava vê-la rapidamente numa tela, nem imaginava o que a esperava. De início, achava que não faria sentido atender a um amor que já se tornava uma lembrança distante, pois ela só se via como uma dona de casa muito ocupada com os afazeres domésticos e filantrópicos, além da educação do enteado Bartolomeo, filho de Giocondo com a sua primeira mulher, Camilla Rucellai. Além do mais, aos 24 anos de idade, não se considerava mais a "giovinetta" que o primo transformara em mulher, aos 15, no olival de Fiesole. Foi preciso muita conversa para Francesco convencê-la a posar para Leonardo, o que Lisa só concordou quando o ouviu elogiar a sua beleza, além da garantia de que seria algo breve, pois os pintores só trabalhavam o rosto e as mãos dos seus modelos, deixando o restante a cargo dos aprendizes. De sua parte, Leonardo prometera, em seis de março de 15004, terminar o retrato em junho.
Pronta para posar, no início de abril, Lisa não acreditava que Giuliano a reconhecesse com aquela sua nova fisionomia, nove anos depois, quando não usava mais os cabelos caídos pela face. Os partia ao meio, com duas fitas lisas em curva, para ajudar a formar um cacho dobrado na nuca, e passara a usar um véo preto para fixar o penteado. Sem dar a mínima importância ao que viveria, ela se apresentara-se para posar usando uma roupa caseira escura, com uma fechada blusa vinho com mangas. Depois que Leonardo, usando uma túnica bordada a ouro, presente do Papa Cesare Borgia, ajustou-lhe a pose e ia começar a riscar, repentinamente, ela lembrou-se de que Giuliano nunca a vira daquele jeito. Retirou anéis e pentes, além dos cachos falsos sobre as orelhas e sacudiu a cabeça, seus cabelos caíram sobre os ombros e, então, Leonardo começou a transformá-la num mito.
Enquanto pintava, Leonardo via nos olhos castanhos e no sorriso de Lisa a reencarnacäo de Albiera Amadori, a madrasta que o fizera de filho e lhe dera amor e carinho, por 12 nos, enquanto seu pai o desprezava. Leonardo tornou-se amigo de Lisa, embora jamais cumprisse prazos. Só em setembro de 1506, ele comunicou-lhe que o quadro estava terminado, sem apresentá-lo. Disse-lhe que viajaria passando por Urbino e pediu permissão para entregá-lo a Giuliano.
Lisa reencontrou-se com o primo que encomendara La Gioconda, em 1512, quando o Papa Júlio II, com a ajuda do exército espanhol, expulsou os franceses da Itália, tomou Florença, destituiu o chefe de estado, Piero Soderini, e recolocou os Médici no poder. Passados 18 anos , ela era uma mulher espiritualmente e sexualmente muito satisfeita com o marido, ao qual se entregara, por gratidão, dois anos depois de casa. Em nada, Giuliano, que fora o grande amor de sua vida e agora era o novo chefe-de-estado florentino a emocionara. Para piorar, ela ficara decepcionda em saber que Leonardo não lhe entregara o quadro. O destino, porém, se encarregaria disso. Coroado Papa, em 11 de abril de 1513, Givanni de Medici, o Leão X, levou o irmäo Giuliano para Roma, e o fez comandante-chefe do exército papal. Em maio, Leonardo decidira tentar a sorte no novo principal centro artístico da Europa. Antes, voltou a procurar Lisa, assegurando-lhe de que, daquela vez, o primo receberia a tela. Lisa sorriu, e nunca mais se viram – nem ela o quadro.
Em Roma, enquanto o Papa negociava o casamento de Giuliano com a filha do duque de Sabóia, Filisberta, o irriquieto Leonardo conseguia emprego na corte papal. Só assim Giuliano conheceria "La Gioconda". Mas ficou pouco tempo com ela, pois antes de casar-se com a tia do futuro rei da França, Francisco I, tristemente, a retirou da parede, no final de 1514, e a devolveu a Leonardo, pois não queria que a esposa visse o retrato de uma outra mulher em seu quarto. Giuliano percebera que o artista gostava muito da obra. Verdade! Leonardo, que em 1516, na sua última passagem por Florença, soubera que Lisa agora só existia em sua tela, passou o final de sua vida, em 1519, em Amboise, na França, olhando para o rosto da Gherardini e misturando aquela imagem com a figura de Albiera, o que a sua mente transformava numa só mulher – com um sorriso intrigante.

TETRANETA DE TIRADENTES QUER SOLUÇÃO PARA PROBLEMAS INDIGENAS

No domingo, quando estiver no palanque, recebendo os cumprimentos de autoridades e convidados para o desfile cívico-militar do sete de setembro, uma brasleira vai entregar ao presidente Luís Inácio Lula da Silva uma carta com duas reivindicações: uma pessoal e a outra coletiva.
Trata-se de Lúcia de Oliveria Menezes, carioca, de 63 anos e que vive com uma modestsa pensão, de pouco mais de R$ 700 reais, deixada por seu pai. Até aí nada de extraordinário. Porém, Lúcia é tetraneta do patrono do Brasil, Joquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), e jamais recebeu a pensão aprovada pelo Congresso Nacional, pela qual luta no Supremo Tribunal Federal.
Se a sentença que condenou Tiradentes e a sua descendência, por tentar fazer do Brasil uma nação livre, ainda valesse, Lúcia, dificilmente, estaria viva, pois ela é a última representante da quinta e execrada geração do “Mártir da Independência”, conforme ela faz questão de mostar na cópia do documento original onde está lavrado castigo imposto ao inconfidente, pela corte portuguesa que colonizava o Brasil.
Lúcia nunca se filiou a nenhum partido político e diz que jamais fez campanhas para algum candidato. Mas, assim como seu tetravô, gostaria de resolver um problema nacional: a questão das terras indígenas. É este o segundo pedido que fará ao presidente Lula – o outro será pela sua intercessão pelo cumprimemto da lei que lhe concede uma pensão, pois alega que é diabética e gasta muito com o seu tratamento.
Para atender ao convite do Palácio do Planalto e se juntar ao presdiente Lula nas comemorações do Dia da Pátria, Lúcia mandou confeccionar um casaco, no qual colocará todas as medalhas recebidas. “Na verdade, as homenagens me prestadas são para o meu tetravô, do qual herdei o grande espírito cívico”, entende a descendente do alferes que foi enforcado e esquartejado, por tentar livrar o Brasil da espoliação de Portugal, em 1789.
A descendência de Lúcia não deixa dúvidas. Desde a certidão de nascimento e batismo de Tiradentes, até a sua sentença condenatória, ele tem cópias dos originais lavrados em cartório. Em um documento fornecido por um instituto genealógico de Minas Gerais, consta que ela é filha de Lucilo Medeiros Menezes, com Isabel de Oliveira Menezes; neta de Sancho de Medeiros Menezes e de Carolina Custódia Beltrão (em solteira, Zica); bisneta de Belchior de Almeida Beltrão e de Maria Custódia Rodrigues Zica; trineta de João de Alemida Beltrão e de Maria Francisca da Silva e tetraneta de Joaquim José da Silva Xavier e de Eugênia Joaquina da Silva.
SEGREDO - Desde garotinha, Lúcia sabia da sua descendência ilustre. No entanto, logo fechou-se para aquela realidade, por não suportar ouvir as colegas de escola chamá-la de mentirosa. “Evitei o assunto, que ficou por um bom tempo na clandestinidade”, brinca uma alegre e sorridente mulher, que herdou do antepassado o timbre forte da voz.
Só em 1969 Lúcia voltou a tocar no “sangue de Tiradentes”, após três trinetos do alferes e que viviam em Dores do Indaiá-MG – Pedro Zoé e Maria – serem levados ao conhecimento do presidente Costa e Silva e do governador mineiro Israel Pinheiro, pelo professor Leonardo Motta de Vasconcelos, embora sem o Xavier no sobrenome. “Os meus antepasassados o excluíram, para escapar da perseguição da Coroa”, lembra ela e confirma a história.
A lei que concede uma pensão estatal a Lúcia foi enviada ao Congresso Nacional, pelo presidente Itamar Franco, que fez questão de chamá-la para comunicá-la, em 1996. Mas o INSS foi contra, citando que nenhum descendente de Tiradentes a recebe e que ela já é pensionista, beneficiada pelo pai. Nessa briga, a Ordem dos Advogados do Brasil lhe auxilia, por intermédio da advogada Sonia Teles de Bulhões, que não lhe cobra nada.
Se um dia vier a receber sua pensão – luta por isso, há 12 anos – , Lúcia não sabe. O que ela diz saber, ver, muito bem, é que seu tetravô está sendo esquecido. “Os jovens não sabem quem foi Tiradentes. A culpa é desse ensino diferente, dos professores de hoje. Vejo, também, muitos adultos sem tal conhecimento e sem patriotismo”, queixa-se a tetraneta do homem que desafiou Império brasileiro.
A primeira homeangem que Lúcia recebeu – ela insiste em dizer que foi para Tiradentes – ocorreu em 1999, quando o então governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, mandou buscá-la, para as comemorações do 21 de abril, em Ouro Preto. No entanto, só três anos depois ela obteve o reconhecimento oficial da sua descendência, quando localizou, nos cartórios de Campos Belos-MG, as certidões de nascimento e casamento do seu pai – até 1937, a genealogia de Tiradentes apontava o pai de Lúcia como solteiro. Ela nasceu em 1945.
VIDA CANDANGA - Lúcia vive em Brasília, desde 1962, quando seu pai engrossou a leva de pioneiros que vieram sevir ao antigo Departamento Nacinal de Estradas de Rodagem-DNER. Solteira, diz que ficou assim por dedicar toda a sua vida a cuidar de sua mãe, após perder o pai. Devido à diabetes – e por falta de dinheiro – ela só sai para visitar as duas irmãs mais velhas, ou para participar – há 26 anos – das programações de um grupo espírita kardecista, na Candangolândia.
Indagada se ela acredita que o presidente Lula seja a reencarnação de Tiradentes, como afirmou, recentemente, uma médium, em Taguatinga, Lúcia foge, indisfarçavelmente, do tema, abrindo a tangente para “os companheiros de um plano espiritual mais elevado”. Mas, deixa escapar: “Acho que não”.
Quem primeiro a convidou para participar das comemorações do sete de setembro foi o Exército, em 1997. Depois, o presidente Fernando Henrique. Nesta semana, ela deparou-se, com um homem, aqui em Brasília, vestido de Tiradentes e pedindo aos brasileiros para não esquecerem do maior herói da pátria. Lúcia relemgra, voltando a brincar: “Saí correndo atrás dele. Corri cinco séculos para trás!”
Matéria publicada no Jornal de Brasília de ...

ROMEU E JULIETA DO SINALEIRO

O que você pensaria, passando, à noite, por um sinaleiro do Setor Comercial Sul e vendo uma linda morena exibindo um enorme coração desenhado em um chocante vermelho? Ou se visse um rapaz, com uma placa, dizendo que cozinha, lava, passa e dá carinho? Com certeza, pensaria que eles estavam sendo mais criativos do que a “concorrência”, não é mesmo?
Se pensou assim, errou! Errou, como erram, inicialmente, os cobradores de ônibus que paravam pelo pedaço. “Eles olhavam e faziamm aquelas caras de quem quer decifrar a cena. Agora, já estão acostumados, até brincam conosco”, conta Mário Luís, de 20 anos, o cara que diz que dá carinho. “Tem gente que grita pra mim: ‘Vem comigo! Vem cá, meu amor. Vem que eu, também, quero lhe dar meu coração’. E outras gracinhas mais”, informa Samara Maia, a morena, de 19 anos, que pinta nas “night” usando um vestido de noiva abandonada.
Pois bem! A dupla que exibe um coração e promete carinho não vai para um sinaleiro em busca de emoções noturnas na horizontal. Nem pensar! É formada por alunos da Faculdade de Teatro Dulcina de Morais, fazendo performances divulgadoras do Grupo do Concreto, para apresentações em uma praça pública da 706 Sul. A rapaziada distribui ingressos às quartas e quintas-feiras, arrebanha público na Estação Rodoviária, lota um ônibus e vai mostrando a sua arte pelas ruas, até chegar ao destino, onde é encanado a peça “Entrepartidas”, às sextas-feiras, sábados e domingos, com texto de Jonathan Andrade, direção de Francis Wilker e participação, também, de alunos da UnB.
Mário Luís já passou por situações inusitadas, durante uma de suas performances no sinaleiro. “Teve gente achando que eu estava ali à cata de um dinheirinho e atirou moedas para mim”. Samara não esquece de uma cena engraçada, envolvendo um motorista de um carro oficial. “Havia uma colega fazendo uma performance, um pouco atrás do local onde eu e o Mário estávamos. O cara achou que ela estivesse passndo mal e ofereceu-se para levála até um hospital”, lembra, sorrindo.
MENSAGEM – Durante as performances no sinaleiro, Mário Luís grita para Sâmara, que fica do outro ladoda pista: “Eu te amo”. Ela respnde: “Não estou lhe ouvindo”. Ele indaga: “Cadê você?” A moça reponde que não o está escutando. E diálogos rolam, até o sinal abrir. “Como a nossa mensagem é o amor, há quem faça cara feia, achando que sou garoto de programa. Mas tudo não passa de metáfora da vida moderna”, define Mário.
A princípio, os pais de Sâmara não consideraram “muito normal” o que ela fazia pelas noites de Brasília. “Mas, depois, ficram sbendo de que era algo muito saudável”. Ela e Mário não são namoados e estão com seus corações livres. “O nosso grande amor é o teatro”, avisam.
A partir desta semana, quem não às apresentações de “Entrepartidas”, gratuitmente, vai ter que mexer no bolso. Inteira a R$ 30 e meia a R$ 15. É só uma forcinha, pra encarar despesas de aluguel de ônibus, montagem da peça, em uma casa da 706 Sul, coisas assim. Mais detalhes sobre o espetáculo no Roteiro do Jornal de Brasília. Sinal aberto!
Obs: texto excrito pro meu marido, Gustavo Mariani, publicado no Jornal de Brasília de 22 de maio de 2010.

A ENCANTADORA DE CÃES

Esta é uma história interessante, pra cachorro! Tudo começou quando veterinária Deise Lizi foi demitida pela Secretaria de Saúde do DF, no final do ano passado. Desempregada, ela mandou imprimir alguns cartazes e cartões, e pediu um “help” à irmã Débora, de 16, e à vizinha Carol, de 17 anos, para divulgar os seus préstimos. Antes disso, na academia onde faz ginástica, ou nas baladas, lá estava ela, entre uma dança e uma contradança, sempre oferecendo o seu cartãozinho aos presentes ao recinto. Mal sobrava tempo para o namorado afagar-lhe as suas lisas e longas madeixas loiras.
Gaúcha peleadora, desde que nasceu, em Porto Alegre, há 30 anos, a Miss Lizi – como os amigos betlemaníacos a chamam, numa alusão à música do mesmo nome –, não podia ver ninguém passeando com um cachorro. Rápida, como os raios que espoucam durante os invernos dos pampas, ela chegava junto. Descia do carro e surpreendia o transeunte, “apresentando armas”, isto é, os seus divulgativos. “Imagine três garotas chegando, assim, de repente, abordando as pessoas! Era até engraçado”, considera a veterinário.
O mais engraçado, porém, foi o que ocorreu quando a Miss Lizi não pode sair junto com as duas “fiéis escudeiras”. Pediu-lhes para extenderem o raio de ação além de pet shops, supermercados, farmácias, postos de gasolina, itens assim, e darem um rolé por onde os cãos fazem xixi – árvores, alambrados, por aí. Foi então que as ajudantes de divulgação não perdoaram nem os postes. Ao ser informada, Deise Lizi avisou-lhes que elas haviam acabado de cometer um ilícito, e pediu-lhes para retirarem tudo, imediatamente, pois era proibido afixar cartazes em edificações estatais localizadas em logradouros públicos. Só que, devido ao adiantado da hora em que a comunicação se dera, as adolescntes deixaram tudo para o outro dia. E como o “outro dia’ das meninas levou mais uns dois ou três dias, aquele tempo foi suficiente para uma clientela se formar. Vários “leitores postais” telefonaram, marcaram consultas e descobriram nela uma verdadeira encantadora de cães.
Hoje, circulando com o seu consultório no porta-malas do seu carro, a Miss Lizia não reclama mais da demissão na agência estatal onde servia até o começo do janeiro passado. Já pode, até, dar uma escapadinha, de uma semana, para Nova York, onde assoprou as velinhas alusivas a mais uma das suas “jubilosas efemérides”, cantando o multinacionalíssimo “Hapy birth day to you”, em vez do abrasileiradíssimo “Parabéns pra você”.
A VETERINÁRIA QUE ENTROU NUMA FRIA - Deise Lizi cursou veterinária, entre 2000 e 2007. Já pós-graduada, na área de clínica e cirurgia de pequenos animais, ela já se prepara para ir mais além. Vai cursar uma pós de dermatologia. “Desde criança eu era ligadona em animais e fazendas”, cita ele que, aos três anos de idade, pelo Natal, foi presenteada com um pastor belga, o Pirata, que também trocou os rincões gaúchos pelo Planalto Central, junto com a família de um funcionário público, quando ela tinha cinco anos. Quando universitária, Deise Lizi pretendia cuidar só de bovinos. Mas, como curtia muito os danadinhos dos “totós”, terminou mesmo foi bandeando-se para a área dos pequenos animais, que inclui gatinhos e gatões, “como o meu namorado”, brinca.
A vida profissional da Miss Lizi começou com uma tremenda gelada. O proprietário de uma clínica de muita tradição, em Brasília, com grande clientela, precisou viajar e deixou-a tomando conta do estabelecimento. De cara, ela deparou-se com a desavença entre um pit-bull e um pastor alemão. “A cliente chegou desesperada, passando-me uma terrível tensão”, recorda. Depois, rolou uma briga entre um quati e um rotweiler, numa chácara. Ficou das 11 às 16h suturando o cão. “Os colegas me sacaneavam, dizendo, “depois piora”, e piorou mesmo. Veio-me o caso de um atropelamento de um poodle”, fato que não gosta de falar.
O caso mais inusitado que chegou à Miss Lizi foi o de um cachorrinho, de seis meses, que comera chumbinhos para matar ratos. Ela o recebeu bem debilitado, o internou e levou quatro dias para salvá-lo. Dias depois da alta e de o “totó” já estar se alimentando noral, o proprietário avisou-lhe que perdera o animal “Muito danado, ele tentou pular sobre uma vala na chácara, mas não deu conta”.
RECEITA - Depois de ter passado por duas clínicas, Deiz Lizi chefiou o departamento de pequenos animais da Zoonose do DF, onde conheceu a burocracia estatal e a maldade dos criadores. No primeiro caso, via a papelada impedindo-lhe resolver o que deveria ser para ontem. No segundo, pessoas abandonando seus cães no canil público, por problemas de saúde, velhice. “Alguns alegavam estarem se mudando para apartamento. Então, a Zoonose ficava mal vista, como matadouro de cães, quando, na verdade, os proprietários era quem levavam a este caminho”, critica.
Para Deise Lizi, a veterinária vem tendo um bom mercado em Brasília. Ela recomenda especialização aos novos profissionais que saem das faculdades. E avisa: “Nada de vaidades ou dificuldades”. Em suma, para não sumir da praça: quando precisa fechar um diagnóstico, na dúvida, nada demais consultar colegas mais experientes. Da mesma forma, se levantar na madrugada fria, sem reclamar, e sair correndo para atender aos apavorados cinófilos que telefonam.
Obs: texto escrito por meu marido, Gustavo Mariani, para o Jornal de Brasília de..

SEU LUISINHO, PAI DA BOLA NO FEMININO

Bola é um substantivo feminino comum. Logo, mulher. Chutada pelo homem, há milhares de ano. Se bem que há masculinos que a acariciam com as duas mãos. Até a agarram. Pulam, se esticam, vão pro alto buscá-la. Caso dos goleiros. A bola faz marmanjos correrem – e muito – se degladiarem por ela.
Exerce bem o seu papel feminino. Um dia, porém, por acaso, por inteiro acaso, as mulheres imitaram os homens e, também, pasaram a chutá-la. Culpa de um masculino. Mais, precisamente, de Aluysio Gomes do Nascimento, o seu Luisinho, um sujeito que mede 1m53 de altura, mais baixo do que Babá, um ex-ponta esquerda do Flamengo, que foi o menor atleta do futebol brasileiro.
Quando estava com 9 anos de díade, no Riode Janeiro, o ainda Aluysio já batia as suas peladas no meio da rua e ouvia os meninos maiores escalando, na ponta da língua, o time do Flamengo de 1939: Valter, Domingos da Guia e Marin; Brito, Volante e Médio; Valido, Valdemar, Leônidas da Silva, Gon zalez e Jabás. Daquele time, Aluysio, que estava virando Luisinho, ficou amigo do goleiro Valter. Muitos anos depois, em 1976, ele estava na Faculdade Dom Bosco de Educação Física, matriculando um dos seus filhos, quando reencontrou o antigo camisa um rubnro-negro, que era um dos diretores do estabelecimento. Enquantose abraçavam, São Pedro resolveu abrir a torneira do Céum, fazendoi um grupo de meninas saírem correndo, de um gramado onde tinham ala, para um ginásio coberto, nde eles estavam.
Ao ver a revoada de garotas chegando correndo e explodindo saúde, Seu Luisinho indagou ao amigo Valter: “Porque não colocamos estas meninas pra correrem atrás de uma bola?”. E sugeriu criar um time com aquela turma. Nasceria ali, o futebol (que não tem gênero) feminino em Brasília. Seu Luisinho formou o primeiro time na Dom Bosco, depois a Aruc o seguiu, mais depois o Minas Braasília Tênis Clube e até o Brasília Esporte Clube, que era bicampeão cadnango, foiu surpreendido, um dia, com o pedido de uma moça que trabalhava no aeroporto, a Dedete, para lhe empretar suas camisas e seu grupo representá-lo na nova onda que rolava pelos campos do DF. No Gama, Seu Luis se encarregava de movimentar as garotas. E o lance não parou mais. Só cresceu.
“Jogamos em várias partes do DF, como time das meninas da Dom Bosco, inclusive no Gama, com a turma do Seu Luis, pra criar rivalidade. O movimento cresceu tanto que, dez anos depois, Brasília já sediava um Campeoanto Brasileiro de Futebol Feminino, que foi disputado no Mané Garrincha”, conta Seu Luisinho, lembrando, também, que a gauchinha Bel, atacante do Internacional, foi o grande sucesso. “Saiu na capa da Playboy”, lembra.
Além de impulsionar o futebol das meninas no DF, Seu Luisinho trabalhava como roupeiro do Brasília Esporte Clube, hoje Futebol Clube. Na década de 1980, ele ficou responável pelos times do Minas e viu o Grêmio Olímpico Tiradentes, liderado pelo hoje coronel da reserva Carlos Fernando Cardoso Neto, conquistar o primeiro campeonato oficial brasiliense da modalidade, promovido pela então Federação Metropollitana de Futebol.
Seu Luisinho chegu a Brasília nos inícios da cidade. Rapidamente, se enturmou com a turma do futebole fez de tudo no Guanabara, campeão candango de 1964. “Fui massagista, roupeiro, motorista, auxiliar técnico, o que desse. O time era rubro-negro e acabou depois da Revolução de 31 de Março. Formamos um timaço, com aquela turma do Elvídio (goleiro), Jair, que jogou no Vasco, Cid, Santiago, Agacir, Lula, Azulinho, Nilson e oturos cujos nomes não me lembro agora”, descculpa-se.
Aos 80 anos, Seu Luisinho está bem de saúde, residindo perto do campo de futebo do Cruzeiro, onde faz, sempre, uma paradinha, para coversar com a rapaziada, nas vezes em que sai fazendo as suas caminhando, “‘para não ficar enferrujado”, brinca. Uma de suas maiors alegrias ´saber que já revelou jogadora para a Seleção Brasileira, a Nildinha.
PONTO ZERO – O primeiro jogo feminino que se tem notícia no Brasil foi em 1913. Atraído por um comercial, segundo o qual as mulheres “poderiam até jogar futebol”, o público foi grande. Mas o machismo de uma época em que só lhes estava reservado o papel de torcedoras, taxou-as de grosserias, malcheirosas e sem classe”.
No Estado Novo, do presidente Getúlio Vargas, entre 1937 e 1945, veio o decreto-lei Nº 3.199, controlando a prática desportiva e empurrando o “sexo frágil” para longe da bola e pra perto dos “sagrados os deveres do lar” . Piorou com o regime militar dos generais-presdidentes. Em 1965, eles criaram um outro decreto-lei, proibindo a mulherada de “adentrar ao tapete verde”. A bola muracha, no entanto, foi revogada, em 1982, pelo já extingo Conselho Nacional de Desportos. Se não fosse isso, não teríamos a genial Marta e medalhas em Olimpíadas e Copa do Mundo.
Obs: texto escrto por meu marido, Gustavo Mariani, para matéria do Jornal de Brasília de..

OLGUINHA DOS ESTUDANTES

“Olguinha dos Estudantes", do jornalista Manoel Barroso, traz o leitor de volta à década de 1930 e parte dos anos 40 e 50.  Trata-se de uma pesquisa concluída 50 anos depois de fatos que cercam o enredo, como a Revolução de 1930 e a Constitucionalista, o fim das República Velha, a Intentona Comunista, a primeira Guerra Mundial, a volta dos pracinhas ao Brasil, o crescimento do nazi-fascismo e do comunismo, e a ditadura do presidente Getúlio Vargas.
 O personagem central da trama, Olguinha, é o “nome de guerra” de uma ativista política paulista que foge para o Rio de Janeiro, quando percebe que está perto de ser exterminada pelo regime político doo presidente Getúlio Vargas, assim como ocorrera com o noivo, companheiro de lutas. Na clandestinidade, quando o dinheiro acaba, ela aceita o convite de uma prostituta granfina, a única que tinha automóvel no Brasil, e vai visitá-la em sua “pensão”. Para ter o que comer, termina aceitando vender seu corpo, mas só para estudantes.
 Manoel Barroso diz que Olguinha é o somatório de várias figuras de uma época em que “os estudantes ajudaram a empurraram o País para profundas transformações sociais, reformando a consciência popular”. É uma história emocionante, passada em um Rio de Janeiro com 1 milhão e 800 mil habitantes, quando o Brasil só tinha 40 milhões e uma sociedade caracterizada pelo elitismo, o machismo, o, preconceito, o catolicismo e o acentuado sincretismo religioso. “O povo era muito patriota, apaixonado por futebol, carnaval e samba, convivendo com um altíssimo índice de analfabetismo”, acrescentas o jornalista.
As pesquisas de Manoel Barroso o levaram também a encontrar um Rio de Janeiro onde muitos pais entregavam ops filhos adolescente a prostitutas de confiança, para a iniciação sexual. “E eles repetiam os pais, freqüentando cabarés, dancings, cassinos, tudo os antecessores faziam. Já as moças não tinham orientação sexual, apenas aprendiam a se defender do pecado, controladas pelo preconceito e temendo o grande constrangimento de serem mães solteiras”, historia Barroso.
É nesse contexto que Olguinha se insere na vida carioca, tornando-se amigas de figuras relevantes do meio social da cidade, como artistas e pintores famosos, que nem desconfiavam de quem ela era, após passar por profunda transformação corporal e no vestir-se. Com classe, iniciava os adolescentes no sexo, mas sempre exigindo a carteiras de estudante.
 Olguinha, protegida pelos colegas ativistas políticos com quem tramava, chegou a ter uma missa de sétimo dia rezada, após a publicação, nos jornais, de um acidente automobilístico que lhe vitimara. No entanto, após a queda de Getúlio Vargas, lá estava ela, de novo, fazendo política e chegando a se eleger deputada estadual, sem que ninguém soubesse da sua vida no clandestinidade.
Obs: texto escrito por meu marido, Gustavo Mariani, para uma matéria do Jornal de Brasília.

A CASA DAS SETE MULHERES

  Está na praça o livro “A casa das sete mulheres”, de autoria de Letícia Wierzchowski, pela Editora BestBolso. A edição sai em tamanho reduzido (17,5 x 11,5) e o texto é o que deu origem à minisérie do mesmo nome, adaptado por Adelaide Amaral e Walther Negrão, e apresentada pela TV Globo, em 2003, numa superprodução dirigida por Jaime Monjardim.
 “A casa das sete mulheres” é uma história que tem como pano de fundo a Revolução Farroupilha, também conhecida por Guerra dos Farrapos, entre 1835 e 1845, quando o Rio Grande do Sul rebelou-se contra o Império brasileiro, por motivos econômicos, tendo por fio da meada a política do governo central para o charque, principal produção regional.
 Conflito que durou 10 anos e que terminou sem vencido ou vencedores, esta foi a mais longa guerra civil continental e da qual Letícia Wierzchowski se baseou para construir a saga de sete mulheres isoladas em uma estância, pelo líder revolucionário gaúcho, o general Bento Gonçalves, que desejava manter a família a salvo e distante das zonas de escaramuças. 
 Natural de Porto Alegre, em 1972, a autora havia estreado na literatura em 1998,quando lançou “O anjo e o resto de nós”. Neste seu segundo trabalho, ela vai mais profundamente nas razões das lutas gaúchas contra o Império, o que foi muito bem mostrado nos 50 capítulos das minisérie global, já vista em mais de 30 países. Quando a livro, ele já foi lançado em Portugal, Grécia, Espanha, Itália e Sévia-Montenegro, e pode ser lido como um ótimo complemento das demais obras de historiadores sobre o grande conflito nacional.
São 543 páginas, mas não se assuste, pois o tamanho delas é a metade do que normalmente se consome nos demais livros. Se mais não falo sobre a obra, que seja para por um motivo justo: ler já sabendo o que vai encontrar, não tem a menor graça.